27 de outubro de 2010

Salvem o Haiti

A disputa presidencial atinge seu momento crucial. Todavia, um assunto me fez deixá-la de lado.
A crise no Haiti, decorrente de seu passado social trágico aliado a um dos maiores desastres da natureza ocorrido em janeiro - um terremoto devastador -, que não só continua latente como foi capaz de, literalmente, me deixar chocado diante do relato do jornalista Fabio Seixas, da Folha de S.Paulo, que esteve no Haiti semana passada.

Leitor do blog do jornalista, voltado para automobilismo, e de suas reportagens, com destaque para o seu périplo por todos os países participantes da Copa da África durante os 31 dias do torneio, o considero um jornalista de alta credibilidade. E por que este intróito? Porque o relato do jornalista é chocante e muito triste. A ele, pois.


 


É o Haiti

“Bonjour, blanc.”
E o menino num dos acampamentos de Porto Príncipe, onde um dia foi a residência do Primeiro Ministro, me desarma.
“Blanc”. Branco. Diferente.
Diferente dele, diferente de todos por ali. Um corpo estranho. Num lugar dos mais estranhos. Mas que, para ele, é normal. É a vida.
“Bonjour , blanc.”
Ouvi isso em todos os acampamentos em que estive nos últimos dias.
Porque sou diferente deles. Não sou negro, não sou haitiano, não vivo numa barraca.
Acampamentos que não têm esgoto a céu aberto pelo simples fato de que o esgoto não corre por ali. Fica. Empoçado, ao lado das brincadeiras das crianças, do dia-a-dia das vacas, dos porcos, das galinhas.

O nome do garoto no tal acampamento, o primeiro a me chamar de “blanc”, é Sebastian Junior. Tem 9 anos. Mora há nove meses numa barraca, com o pai e os irmãos. A mãe morreu no terremoto de 12 de janeiro.
Já estive em lugares precários. Fui ao interior da Tailândia, ao Kosovo, à Nigéria. Fui a buracos do sertão do Nordeste brasileiro. Fui a favelas em São Paulo.
Não vi probreza assim.
Imagine a pior das condições de sobrevivência.
Multiplique por dez.

É o Haiti.

“Vou para a escola de manhã. À tarde, estudo um pouco. E brinco com meus amigos”, diz Sebastian.
Vai à escola andando. E talvez seja mais rápido do que subir numa das caminhonetes apinhadas de gente. Porque o trânsito em Porto Príncipe não anda. É o caos.
Imagine ruas estreitas sem sinalização, com enormes crateras, cheias de pedestres, jipes, caminhões, tratores. Multiplique o número de veículos por cem. Divida a largura das ruas pela metade. Acrescente gritos, buzinas, bicicletas, motos, absoluta falta de iluminação urbana.

É o Haiti.

Ao lado da barraca de Sebastian há uma piscina. Ou o que um dia foi uma piscina do Primeiro Ministro. Hoje está cheia de tendas.
Numa delas vive Julianes Pierre. Tem 11 anos, é amiga de Sebastian. “É muito ruim viver aqui. Vivemos com dor de estômago. Quando chove, a água entra. Dormimos molhados.” É estação das chuvas.

É o Haiti.

Foram apenas quatro dias por aqui. E o tempo todo, uma pergunta vem à cabeça. É inevitável: “Como eles conseguem viver?”

Concluí que eles vivem porque não sabem que existe outro tipo de vida.
Não sabem o que é entrar num banheiro azulejado, fechar a porta, sentar em paz numa privada, tomar um banho em privacidade, escovar os dentes, sair arrumado. Não sabem o que é estar diante de uma mesa e receber uma salada, um prato cheio de comida quente, uma sobremesa. Não sabem o que é meter o dedo num interruptor e ver uma lâmpada acender.
Você já deve ter sentido isso: uma pessoa querida morre e você percebe que tantas das suas preocupações diárias não fazem o menor sentido, não têm importância, não valem nada.
Multiplique por mil.


Além deste relato, o jornalista fez diversas reportagens, entre as quais uma entrevista com Edmond Mulet, chefe da missão da ONU no Haiti. Perguntado sobre a situação do país, Mulet responde de forma direta: “não vejo luz no fim do túnel”.

No meio de tanta tragédia, nós, brasileiros, temos algo com que se orgulhar. Veja a opinião de Mulet sobre a ação do Brasil do Haiti:

“É um dos compromissos mais positivos e construtivos em anos. O Brasil realmente fez a diferença. Foi o primeiro a colocar dinheiro nos fundos para a reconstrução e para as eleições. Quando o presidente [René] Préval pediu ajuda técnica para construir uma nova hidroelétrica aqui, foi o Brasil que levantou a mão... Desde o terremoto, o Brasil já mandou mais de 300 voos com ajuda humanitária. Mais de 300 voos em nove meses! Ninguém fez nada parecido.”

Se o mundo quisesse, o Haiti não estaria nesta situação!

Mas como é um país “insignificante” da América Central, sem grandes riquezas naturais para saquear...

 
 
 
Por : Pedro Rossi

Um comentário:

  1. Tenho muita pena do resto do mundo que jamais terá paz enquanto houver povos vivendo assim. O pior é que os verdadeiros responsáveis por tudo isso, tem posição de líderes no mundo hoje, como no passado. Mas e a ganância? Exploraram o Haiti e seu povo subjugado por anos a fio e depois ainda cobraram uma "indenização" pela sua independência... E os outros "poderosos" nada disseram, imperialistas e sugadores, inescrupulosos e desumanos, desfarçados de "salvadores da pátria"... só rindo aquele sorriso bem debochado e torto. Abandonaram esse povo à própria sorte, sem recursos, sem estrutura, sem possibilidades mínimas de sobreviver, que dirá, crescer. E pior, ninguém liga! Como disse Mulet: Mas como é um país “insignificante” da América Central, sem grandes riquezas naturais para saquear..." bem, que morram afogados nas próprias fezes. Ninguém liga!
    Os "paízes ricos", os donos do dinheiro e do poder estão preocupados em fazer guerras contra o terrorismo que eles mesmos alimentam com armas, treinamentos e ódio racial. Que nojo!
    Desculpe. Vou parar de falar...
    Beijokas.

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