15 de novembro de 2009

A MOÇA, A SAIA, A FACULDADE

SÃO PAULO (é o fim) – Fiz faculdade entre 1982 e 1985. Faculdade de riquinho, FAAP. Não havia sinal de movimento estudantil ali. Na verdade, com o fim da ditadura, a eleição de Tancredo e a perspectiva de diretas em 1989, o movimento estudantil se enfraqueceu e, sendo bem sincero, foi sumindo aos poucos. Minha atividade mais próxima da subversão foi vender sanduíches naturais para arrecadar dinheiro para uma festa das Diretas.
Hoje, as entidades representativas dos estudantes servem para emitir carteirinhas para a turba pagar meia-entrada em shows e no cinema. Sem um inimigo claro, que no caso das gerações imediatamente anteriores à minha era o governo militar, ficamos sem ter do que reclamar. Porque, no fundo, por conta da politização desses movimentos todos, a questão educacional foi colocada de lado por muitos anos, e deixou de ser prioridade.
Já como repórter, cheguei a cobrir algumas confusões na USP na segunda metade dos anos 80. Sem querer simplificar demais, mas recorrendo ao que minha memória me permite lembrar, o tema central era o aumento do preço do bandeijão nos refeitórios da universidade. Deu greve e tudo. Muito pouco. Ainda mais porque, como se sabe, boa parte dos que conseguem chegar à USP vêm de escolas particulares, e o preço do bandeijão não chegava a afetar seriamente o orçamento de ninguém.
O caso dessa moça de minissaia da Uniban poderia ser um bom motivo para despertar algum tipo de reação na molecada. De repúdio aos que ofenderam a menina, de reflexão sobre os rumos da universidade, de protesto contra sua expulsão, de perplexidade com o recuo da reitoria por razões obviamente mercantis.
Reitoria… Era palavra respeitada, antigamente. Hoje, os reitores dessas espeluncas mal falam português. A transformação do ambiente universitário em quitandas que vendem diplomas é assustadora. E os estudantes são coniventes. Não exigem ensino de qualidade, compromisso com a educação, porra nenhuma. Querem se formar logo, se possível pagando pouco, e dane-se o mundo.
Fico espantado ao observar como pensa e age essa juventude urbana entre 20 e 25 anos. São fascistóides, hedonistas, individualistas, retardados ao cubo. Basta ver o perfil da menina da minissaia no Orkut. Uma completa debilóide, mas nada diferente, tenho certeza, de seus colegas de faculdade (vejam as “comunidades” às quais ela pertence; coisas como “Gosto de causar, e daí?”, “Sou loira sim, quem me aguenta?”, “Para de falar e me beija logo”, coisas do tipo). O que, evidentemente, não dá a ninguém o direito de fazer o que fizeram com ela. Até porque são todos iguais, idênticos, tontos, despreparados, sem noção.
Aí a Uniban expulsa a menina, dizendo que os alunos que a chamavam de “puta” e queriam bater na coitada estavam “defendendo o ambiente escolar”. Puta que pariu! Como é que pode? Como podem adultos, “educadores”, que teoricamente têm um pouco mais de neurônios em funcionamento, reduzirem a questão a isso? E criticarem a menina porque ela se veste assim ou assado, anda rebolando, “se insinua”?
Pior: muitos, mas muitos mesmo, alunos defenderam a expulsão. Acham que a menina é uma vagabunda que provoca os colegas. Bando de animais, intolerantes, sádicos, hostis, agressivos. Eu nunca deixaria um filho meu estudar numa universidade frequentada por esse tipo de gente e dirigida por cretinos do naipe dos que assinaram a expulsão e, depois, revogaram-na sem revelar o motivo — aquele que nunca será admitido, o prejuízo à imagem dessa porcaria de empresa, sim, empresa, e das mais lucrativas, porque chamar um negócio desses de “universidade” é desmoralizar a palavra.
O Brasil está fodido com essas gerações que vêm por aí. Um caso desses, que poderia trazer à tona discussões importantes sobre o comportamento dos jovens, suas angústias, seus rumos, resume-se ao tamanho da saia da moça e ao seu comportamento “inadequado”, seja lá o que for isso. A educação, neste país, tem sido negligenciada de forma criminosa há décadas. O governo poderia começar a limpar a área por essas fábricas de diploma, que surgem aos montes sem que ninguém se preocupe com o tipo de gente que está à frente delas.
O que se vê hoje, graças a essas faculdades privadas de esquina, sem história e princípios, é uma população cada vez maior de “nível superior” sem nível algum. Um desastre completo. Gente que não pensa, não argumenta, não lê, não raciocina coletivamente, se comporta como gado raivoso, passa o dia punhetando no Orkut e no MSN, escreve “aki”, “facu”, “xurras”, “naum”, “huahsuahsua”, um bando de tontos desperdiçando os melhores anos de suas vida com uma existência vazia, um vácuo intelectual, sob o olhar perplexo de gerações, como a minha, que um dia sonharam em fazer um mundo melhor e, definitivamente, não conseguiram.
Somos todos culpados, no fim. Me incluo.




10 comentários:

  1. Querido amigo avassalador... francamente... não sei bem o que dizer sobre essa jovem e seus agressores ou sobre atitude da faculdade e posterior recuo...Fato é que ontem sabado...ela estava no programa Altas Horas e já tem outros convites para Tv...
    ????? Esse não é um pais serio!

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  2. Olá!

    Concordo com sua indignação!
    Eis o resultado da nossa política de incentivo a educação:Quantidade x qualidade.

    Abs!

    Carol Sakurá

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  3. Esse texto do Flávio Gomes é o melhor que vi sobre a situação toda. Tanto que deixei um comentário lá tb:

    Alexandre disse:
    9/11/2009 às 22:18

    Apenas me recolho a minha insignificância.

    Isso é BraZil e estes são os brazilóides. As cabeças pensantes, o nível intelectual, o futuro… Sou aluno de Jornalismo e estudava numa faculdade assim. Confesso que me “acostumei” com essas atitudes. Me acostumei a ver os medíocres se sobressaírem. Acostumei a ver estudantes de jornalismo q não assistem aula, não sabem nada de história, não lêem, não interpretam, nem ao mínimo conhecem os grandes nomes do jornalismo, levar a melhor sempre…isso é BraZil.
    A galerinha da “facu” não quer saber, eles querem é farra e o mundo q se exploda. Como vi num vídeo certa vez de uma confraternização de alunos de Jornalismo. A repórter pergunta pro futuro jornalista o pq de não haver mais protestos. O futuro formador de opinião responde: “Porque ultimamente não tem mais nada o que fazer. Esse país já tá uma merda mesmo, se a gente protestar aí é que vai fuder tudo…” Ela dá a réplica: “E porque VOCÊ não faz nada??” E ele: “Porque EU tô bem assim”

    Então… isso é BraZil

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  4. Nossa, eu fiquei realmente indignada com a tal 'estudando universitária'. Não só com ela, mas com a classe, que está sendo vista lá fora do Brasil com a moral lá embaixo. Eu sou universitária, eu estudo pra caramba, eu ralo pra passar no mestrado, e quem me dera ser convidada para ir ao 'Altas Horas'. Mas eu não me exponho, eu não concordo mesmo com a roupa que ela estava usando, porque eu acho que o que você usa mostra o que você é. No caso dela então, não só o que ela usa, mas o que ela fala também. A mulher é muito idiota, ela não sabe falar coisa com coisa, não sabe comentar nada e nem argumentar coisa alguma!
    Não concordo com o que a Unibam fez, muito menos com a confusão causada por outros estudantes.
    Fico é irritada, com tanta gente com problema de verdade, tanta faculdade com problema de verdade, tantos alunos com problemas, a educação esse caos, e a mídia fica em cima do tal vestido.
    Um mínimo de tecido.
    E um mínimo (menor ainda) de moral.
    Este é mesmo o nosso Brasil do presente.
    Tenho medo, já que essa geração, a minha geração, é o futuro desse país.

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  5. Rsrsrs...Obrigada!!!
    Parabéns pelo blog!!!Bem interessante!!

    Sucesso!

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  6. Eu tenho várias opiniões sobre o assunto,é difícil debater,a postura da estudante,a postura da universidade,dos alunos...
    O ensino no Brasil entrou em declínio já faz alguns anos seja o ensino universitário,ou até mesmo fundamental,não há mais respeito de reitoria/diretoria,não há mais interesse da parte de alunos,não há ensino adequado vindo dos professores...
    Em 2003 terminei o ensino médio a rede estadual de ensino resolveu entrar em greve e 30% dos professores da minha escola aderiram a greve,as notas e frequências dos alunos tbm não eram boas,então naquela época eu era diretora cultural do núcleo estudantil da escola então eu junto com a diretoria entramos em acordo com os alunos que eram bons nas matérias do professores que aderiram a greve e resolvemos que nós alunos mesmos dar aulas,eu fiquei responsável pela matéria de Química e colaboradora de uma das professoras de história que teve que cobrir as turmas dos outros professores,eu como outros alunos tivemos que aprender a matéria de todo o ano letivo para poder ensinar aos alunos foi um pouco complicado aprender sozinho algo que nunca havia visto na vida,mais o resultado foi satisfatório,pelo menos em quimica na turma que fiquei responsável no fim do ano somente 3 ficaram reprovados,nas outras turmas tbm houve resultados positivos,e no final ganhamos como prêmio um histórico de ouro rrsrsrsrs

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  7. A Sociedade está sem rumo, sem valores definidos e a perspectiva não me agrada.
    Falta pouco para a idade da padra.

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  8. Oi Erich!

    Gostei muito deste texto do Flávio. No início, pensei que era o Pedrão, mas depois vi que não era...hehehe.

    Concordo com ele. Vim de faculdade particular, apesar de ter tido bolsa social. Claro que não podemos generalizar, mas a qualidade dos alunos não está boa.

    Um problema que vem do ensino fundamental e médio, onde os alunos não querem aprender, ler, muito menos interpretar. Querem apenas o diploma.

    O "Caso Unibam" me assustou pelo despreparo da faculdade de resolver o problema e de expor a moça duas vezes na mídia: uma pelo factóide dos alunos quererem linchá-la e a expulsão pelos informe publicitários veiculado nos jornais.

    Esse caso me faz ver o quanto precisamos investir em educação. E, na minha área, que felizmente não é qualquer um que pode ser Jornalista ou fazer qualquer atividade ligada a Comunicação sem conhecimento prévio.

    Não sei se eles tinham assessoria de imprensa, mas se tivessem uma de qualidade não teriam colocado esse informe nos jornais pra início de conversa. Faltou orientação e, principalmente, educação e respeito.

    Abraço,

    http://cafecomnoticias.blogspot.com

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  9. É uma absurdo o que aconteceu com essa garota da uniban...respeito e educação são itens básicos...

    Mas discordo em relação a estarmos fudidos com as gerações que vem por aí...as gerações que estão aí é que ficaram fudidas com as gerações anteriores...as chamadas gerações da ditadura, geração do sexo, amor e drogas dos anos 70 ou pra ser mais claro, a geração perdida...essas foram prejudicadas por anos terríveis e hoje são pais ou avós, são os educadores da geração atual...

    Tenho esperança nas gerações futuras, creio q a cada geração q passa, a ditadura tanto na era vargas, como na ditadura da era dos generais vão ficando pra trás...e assim nos livramos de uma geração q é autoritária, mal educada e alienada...salvo algumas exceções...

    Passa lá e comenta tb:
    http://caopelado.blogspot.com/

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