5 de novembro de 2008

Multipolaridade?

Quando instigado a participar do blog apareceu na minha cabeça muitas questões presentes no nosso dia-a-dia, objeto de discussões nas conversas de bar quando amigos ou conhecidos que naquela falta de assunto, perguntam: “E essa crise hein?”. Agradeço a oportunidade e dedico esse texto a vocês, nobres amigos inquietos com a vida.
O assunto está meio desgastado, no entanto ainda gostaria de fazer algumas ponderações.
Não há “trapalhada” mais perfeita do que aconteceu na economia americana, e como ironia do destino, justamente no governo Jorge W. Bush. O homem é PhD no que se refere a “fazer merda”. Os Estados Unidos enfrentam o período de maior restrição e encolhimento desde a grande depressão. Mas será que sua hegemonia está ameaçada? Muitos escrevem sobre a nova era multipolar, na qual o mundo assistiria grandes países ditando a nova ordem econômica, será? E o Brasil? Ou ainda, os Estados Unidos sairiam da crise mais fortalecidos em relação aos outros países?
A revista Carta Capital dessa semana nos chama atenção em sua reportagem “au revoir mon amour” à fuga de capitais dos países emergentes para um “porto seguro”, no caso o Dólar Americano, citando George Soros e Martin Wolf no Financial Times: “A noção de que uma recessão rápida purificaria o mundo é ridícula... A única forma de deixar o setor privado se desalavancar, sem falência em massa, é substituindo os ativos depreciados pelos ativos que todos querem: a dívida do governo”. Em outras palavras, eles querem dizer que a única saída às empresas privadas que tinham crédito a mais, mais do que poderiam pagar e advindo de outras empresas duvidosas, é trocar essas dívidas pelos títulos do próprio governo americano.
Faz sentido, após assistir o FED (Banco Central Americano) comprar tudo que é sujeira do mercado, tudo que era duvidoso, e tranqüilizando as mesas de operações dos bancos. Tudo em nome da solvência do mercado. Entretanto, a questão é: como se financia o FED? Pressuponho que em parte já foi respondida a questão, haveria apenas duas maneiras: ou emitindo dívida, o “porto seguro” dos pobres mortais; ou emitindo moeda, o causador de inflação (não seria problema na atual situação). Guardada as devidas proporções, obviamente que a contrapartida desse financiamento é um esforço fiscal grande e não cabe entrarmos na discussão. Claro que na corrida por fontes de financiamento que haverá nos próximos anos (corrida por crédito) a economia americana dispara em vantagem. O sistema quer confiança.
Apesar de nos últimos anos da deteriorização do dólar, a própria Europa, Japão e os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) acumularem muitas reservas cambiais, controlarem o nível de preços, ajustarem o equilíbrio de conta corrente (conta capital), em uma tentativa de “arrumar a casa”, a dificuldade de conseguir financiamento estará na falta de flexibilidade na política monetária, diferentemente da facilidade que os EUA possuem. A prova disso é a grande reversão do quadro econômico dos últimos meses, todos estão feridos.
Os países continuam economicamente frágeis. O Brasil, por exemplo, adia a muitos anos as reformas estruturais necessárias para melhorar o ambiente para investimento direto, não consegue ultrapassar a casa 20% do PIB desde a ditadura militar, teve sorte de não ser afetado como em 1999 (Crise Russa) pois possui um alto nível de reserva, mais de US$200bi, e conseguiu eliminar a dívida cambial apenas em 2007. Surfou na bonança, na alta do preço das commodities, conseguiu crescer consistentemente, mesmo praticando altas taxas de juros, reduziu o desemprego para baixo de 8%, aumentou a massa salarial, mas não eliminou a dificuldade em ampliar a infra-estrutura e não pensou em momento algum em reduzir o tamanho do Estado.
Reflexo disso é o governo decidir apenas agora reduzir o superávit primário (diferença das receitas menos despesas do governo, não incluída o juros da dívida) para 3,8% do PIB. Esse esforço que até então era de 4,5% devidamente sustentado pelo recordes de arrecadação tributária, tornou-se um problema com a pressão cambial na inflação dos últimos meses. Não foi pensando em “aliviar o bolso dos brasileiros” e muito menos com o objetivo de se repensar o tamanho do Estado, mas simplesmente por tentar resolver o problema da pressão do nível preços causada pela disparada do dólar. Convincente? Mas porque não fizemos isso antes se tínhamos espaço para financiamento? Fica claro como o Estado se sustentou durante esses anos e não quis nem pensar em reduzi-lo. A questão é: qual será sua nova fonte de financiamento, em tempos de crise?
Não se pode afirmar com tanta veemência que houve nesse período de “vacas gordas” alguma mudança na ordem econômica mundial. Tiveram países que se sobressaíram, mas atualmente enfrentam dificuldades. Poderíamos citar alguns: tanto China, Índia e os emergentes, no geral, tiveram crescimentos sustentados, mas muitas vezes saíram de uma base econômica pequena, enfrentam dificuldades semelhantes as nossas e estão sofrendo com a redução da demanda mundial. A Europa, por muitos anos não consegue reduzir suas taxas de desemprego para baixo dos 7%, causado pelo enorme custo trabalhista, é também muito dependente do sistema financeiro mundial. E o Japão continua com muita dificuldade em sair das longas décadas perdidas praticando taxas de juros negativas.
Por fim, não é fácil mensurar o tamanho das perdas e qual é a velocidade de recuperação. A Nova Ordem Mundial dependerá da reestabilização da economia americana e posteriormente será ditada pelos países que melhor se saírem neste período de crédito escasso.


Texto escrito por : Fabio Lopes

24 comentários:

  1. Grande Fabinho, dando seu ponto de vista e fazendo seus comentários econômicos.
    Gostei, principalmente por nos elucidar certos termos e mantras econômicos que normalmente são de difíceis assimilação.
    Continue assim que você verá que pouco a pouco a prática da escrita, além de ser muito interessante para desenvolver o pensamento, vai ficando mais fácil.

    Abraço.

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  2. eu escrevi o post acima fabinho,
    pedro rossi

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  3. "PhD no que se refere a fazer merda". Esta é a síntese da futura biografia do Bush! hehehe

    Abraços

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  4. Uma vez eu falei para um amigo: "você só consegue ver o mundo desde que seu campo de visão tenha seu umbigo. Fora disso, não é mundo pra você".
    Pois é: o que aconteceu com os Estados Unidos foi mais ou menos isso. Mesmo METENDO O BEDELHO em assuntos que não lhes diz respeito, eles ficaram atentos demais ao próprio umbigo e deu no que deu.

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  5. Consertar em 8 anos, 30 anos de merdas da ditadura, Sarneys e Collors é difícil.

    Já destruir as reservas cambiais e petrolíferas de um século, foi mole para o Bush! rs

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  6. Agora começamos uma nova eram, a cristalização do muçti-culturalismo mundial, que só podia mesmo ser liderado pelos EUA. Vamos esperar algo de novo nessa nova era.

    www.pelopelourinho.blogspot.com

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  7. hum, não sou um extremo entendido em economia, porém, acredito que o "ego" foi o grande causador de tudo... Brasil caminha para o mesmo "Ego", de forma moderada, mas caminha!


    http://visaocontraria.blogspot.com/

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  8. Texto excelente com grande riqueza de conteúdo.Creio que em janeiro uma nova era começará, com a posse de Barack Obama na presidência dos EUA.O que nos resta nestes tempos tão malucos que vivemos é a esperança de dias melhores.E isso, eu possuo!Que os tais dias melhores cheguem logo.Senão será tarde demais...

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  9. muito bom o post!
    creio que a queda de todo esse poder americano n está só na economia.... ele podem até estar passando por um periodo dificil, mas há outras quentões como cultura e ideologias, e essas influênciam bastante outros paises e como estes o entendem...
    bjus ;***

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  10. Adorei o post e achei muito pertinente.
    Postei no meu blog um texto falando do Obama, mas eu sou péssima dissertando sobre economia e política. E até vergonha agora do meu texto depois que li suas considerações, hehe!

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  11. Uma coisa é certa: Os EUA está em declínio, e apenas o Mito em que as pessoas acreditam é que está sobrevivendo. Ainda ha pessoas de outras naçòes que querem um final de filme de Hollywood: um final feliz, com a bandeira americana aparecendo com uma linda musica de fundo.
    Eu vejo um outro quadro: Estão caindo. O buraco é fundo. A popularidade já está no chão, Obama é uma tentativa de melhorar a reputação, quebrando barreiras "raciais" e querendo mudanças imediatas.
    Reafirmo hoje pela segunda vez: O Brasil tem tudo para ser uma grande potência, e não precisamos nos preocupar militarmente com os EUA. E de dívida externa, ninguém conseguiu sentar e conversar como gente grande ;)
    Sem dizer q nossa diplomacia é boa, MAS, também é feita a base de Vasilina, metem na gente sem avisar, e sempre temos uma conversa mole e acordos abusivos.
    Força algumas vezes e mão de ferro são obrigatórios e certos momentos.

    Abraços.

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  12. Bush realmente foi o martir da crise da economia, porém nos veremos o que vai acontecer depois que tudo acabar e muitas empresas forem compradas por outrs neh..

    __________________

    http://tecnijogos.blogspot.com

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  13. Uau, você deu uma aula agora!
    Não posso estender muito o meu comentário, mas afirmo que foi um prazer ler. Até mesmo porque vivencio isso na faculdade.


    beijo.


    http://putoanonimo.blogspot.com

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  14. td de bom...
    adorei!


    http://melrym.blogspot.com/

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  15. Nossa, ótimo post e vamos ver o que vem pela frente...

    Beijos !!!

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  16. Hm,... a crise é algo que realmente balançou o mundo e virou tudo de cabeça para baixo.


    ótimo post.

    Seu blog está muito legal.
    parabéns cara.


    até.

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  17. Obama vai ter um trabalhão pela frente. Pq provavelmente essa crise nao se resolverá antes de sua posse.

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  18. Blog estiloso... gostei pacas... entrando pela primeira vez e gostando do que vê!! Parabéns!!

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  19. Você escreve intensamente bem :)

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  20. Só deixando claro que, quando eu postei isso, não sabia o que diabos era "sentar e conversar como gente grande".
    Ridículo.

    Quanta ao meu comentário, foi desnecessário, assim como tudo que eu fazia na época dos comentários infelizes que fazia! Não gosto dos EUA, e hoje em dia odeio mais ainda!

    Hoje eu tenho mulher, filho e uma vida digna.

    Peço ao moderador para retirar meus comentários, pois nada do que eu falava nessa época, mereia alguma atenção!

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  21. Não assinei acima e faço QUESTÃO enquanto estiverem as postagens no ar:

    LEONARDO DOGNANI

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